Nimeria — O Jardim de Cristal
O cheiro salgado do mar, misturado ao ranço de rum velho, atingiu Nimeria assim que seus pés tocaram novamente as docas de Nargor.
Anos. Anos haviam se passado desde a última vez que estivera ali — não como visitante, mas como prisioneira.
Dessa vez, porém… ela não veio fugir. Veio caçar.
Nimeria começou a avançar pelo covil como um espectro vingativo. Um grupo de piratas surgiu entre barris e caixas, rindo alto.
Até que o ar ao redor deles esfriou abruptamente.
Um deles parou.
— Vocês sentiram iss—
Antes que terminasse, raízes grossas irromperam do chão, prendendo suas pernas com força brutal.
O solo respondeu ao chamado de Nimeria como um velho aliado. Em seguida, uma rajada de gelo cortou o ar — precisa, silenciosa.
Congelando armas, mãos… e gritos.
Ela não precisava de lâminas. A natureza fazia o trabalho por ela.

Sem pressa, Nimeria seguiu adiante. Onde passava, o chão rachava, cipós se retorciam, e o frio se espalhava como uma praga silenciosa.
Até que…
— Você sempre foi silenciosa… mas não tanto assim.
A voz a atingiu como uma memória viva. Nimeria parou.
Virou-se lentamente. Lá estava ela.
Joe. Joe Caolho — era como a chamavam.
O tempo havia deixado marcas, mas não a havia quebrado. Um pano escuro cobria o olho perdido, e sua postura ainda era firme…
Mas havia algo diferente. Algo errado.
Preocupação.
As raízes ao redor dos pés de Nimeria se retraíram lentamente, como se também reconhecessem aquela presença.
— Eu achei que você estivesse morta — disse Nimeria, com a voz calma, mas carregada.
— E eu achei que você nunca mais pisaria aqui. — respondeu Joe.
O silêncio entre as duas não era hostil… era pesado de passado.
— Você não voltou só pra isso… voltou? — Joe olhou ao redor, para os piratas imobilizados.
Os corpos espalhados, deixando um rastro de sangue pelo local.
Nimeria respondeu, sem desviar o olhar:
— Eu voltei pra acabar com esse lugar.
Joe soltou um leve suspiro.
— Então chegou tarde demais.
O vento mudou. Nimeria estreitou os olhos.
— Explica.
Joe deu um passo à frente, mais séria do que Nimeria jamais a tinha visto.
— Tem algo na ilha. Algo novo. Um lugar que eles chamam de Jardim de Cristal.
O nome não combinava com o tom dela.
— Alguns foram até lá atrás de riqueza… — continuou Joe — … os que conseguiram voltar disseram que os demais não eram mais gente.
Um leve arrepio percorreu o ar. Instintivamente, pequenas partículas de gelo começaram a se formar ao redor de Nimeria.
— Eles mudaram. A pele… endurecida, como cristal. E os olhos… vazios.
Nimeria sentiu algo inquietante naquilo.
Magia… mas não uma magia natural.
— Isso está se espalhando — disse Joe. — Já começou a atingir gente daqui.
O silêncio voltou, mais denso.
— Se sair da ilha… — Joe hesitou por um segundo — Liberty Bay pode ser a próxima.
Dessa vez, a reação foi imediata. O chão sob os pés de Nimeria vibrou levemente.
Liberty Bay… Não. Ela não permitiria.
Nimeria fechou os olhos por um breve instante, sentindo o fluxo da natureza ao redor… tentando entender aquela distorção.
Quando os abriu, sua decisão já estava tomada.
— Então a gente corta isso pela raiz.
Joe ergueu uma sobrancelha.
— “A gente”?
As pequenas formações de gelo ao redor de Nimeria se dissiparam lentamente.
— Você me ajudou a sair daqui — disse ela. — Agora eu ajudo você a impedir isso.
Joe ficou em silêncio por alguns segundos… então um meio sorriso surgiu.
— Você continua perigosa.
Nimeria respondeu, tranquila:
— Só quando precisa.
Joe soltou um leve suspiro, como se aceitasse o inevitável, e então assentiu.
— Eu seguro o que sair daí — disse, firme. — Mas lá embaixo… é com você.
Nimeria apenas assentiu e desceu.
A caverna se abriu diante dela como uma ferida na própria ilha.
Cristais cresciam por todos os lados — não como formações naturais, mas como algo que havia invadido o espaço.
Alguns eram translúcidos, outros opacos… e alguns pareciam pulsar, como se tivessem vida.
O primeiro ataque veio sem aviso.
Um dragão de gelo surgiu entre os cristais, bloqueando o caminho.
Nimeria reagiu imediatamente, erguendo uma barreira de raízes e prendendo a criatura.
Sem perder tempo, seguiu adiante.
Outras ameaças surgiam pelo caminho — aranhas de cristal nas paredes, piratas mortos-vivos vagando sem rumo...
Fantasmas presos àquele lugar — mas nenhuma delas a deteve.
Ela avançava com controle, superando cada obstáculo sem hesitar.
Foi mais adiante que ela encontrou o sino.
Pequeno. Antigo.
Coberto por uma fina camada de cristal.
Quando Nimeria o tocou, o som não ecoou como deveria.
Ele… vibrava.
Como se estivesse respondendo ao próprio ambiente.
Ela franziu o cenho e guardou-o.

Explorando mais profundamente, encontrou velhas anotações espalhadas entre restos de ossos deteriorados.
Ali estava a verdade.
Os piratas não haviam ido apenas atrás de tesouro. Eles estavam experimentando.
Cristais. Petrificação. Essência de criaturas mágicas.
Entre os registros, algo chamou sua atenção:
Uma fórmula.
Uma poção capaz de reverter petrificação em objetos…
ou em coisas que foram transformadas em algo além disso.
Nimeria reuniu os ingredientes que encontrou ao longo da caverna — fragmentos cristalinos específicos, óleos extraídos de criaturas corrompidas.
Com paciência e precisão, preparou a mistura.
Segundo a receita, ainda faltava um ingrediente.
O resultado ainda era instável.
Mais fundo ainda…
Ela encontrou algo perturbador.
Uma forma distorcida, completamente petrificada. Uma banshee.
Ou melhor… o que restava dela.
Sua boca aberta em um grito eterno — silencioso, preso no tempo.
Ao lado… um cristal vermelho.
Denso. Pesado. E, de dentro dele… escorria algo: Sangue.
Sangue de medusa. O último ingrediente que faltava.
Cuidadosamente, Nimeria coletou um pouco e terminou de preparar a mistura.
Seguindo o padrão da vibração do sino, ela começou a perceber algo.
Em certos pontos da caverna, o objeto reagia com mais intensidade.
Como um guia.
Como uma chave.
Até que chegou ao lago subterrâneo.
A água era clara. Parada.
Quando Nimeria aproximou o sino… ele começou a vibrar violentamente.
Sem hesitar, ela o tocou.
O som ecoou.
E a água respondeu. Um redemoinho se formou, silencioso e profundo.
Antes que pudesse pensar demais… Ela entrou.

O outro lado não era uma continuação da caverna.
Era… outro lugar.
Cristais escuros cobriam tudo.
Não refletiam luz. A absorviam.
O ar era pesado — quase sólido.
Cada passo exigia esforço.
E ali… no centro…
Um cristal negro. Imenso. Imponente.
Nimeria sentiu imediatamente... Era a fonte.

Ela se preparou. Primeiro, protegeu os ouvidos com o que tinha.
Depois, retirou o frasco com a mistura que preparara… e o derramou sobre o grito petrificado da banshee.
O som que se seguiu não era natural.
O cristal negro começou a rachar com o grito perturbador… até que se partiu em inúmeros pedaços.

Quando Nimeria voltou à caverna original, algo havia mudado.
Os cristais já não pulsavam.
Os sussurros haviam cessado.
E os fantasmas…
não estavam mais ali.
Ao sair, a luz do exterior pareceu mais forte do que antes.
Joe ainda estava lá.
Arma em mãos, cercada por alguns corpos.
— Demorou — disse ela, sem esconder o alívio.
Nimeria apenas respondeu:
— Acabou.

O vento soprou vindo do mar.
Limpo... Sem peso... Sem corrupção.
Mas, no fundo… Nimeria sabia.
Aquilo não parecia obra de piratas.
Alguém começou aquilo.
E talvez…
Aquilo fosse só o começo.
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