Muito antes de seu nome ser pronunciado ao lado do rugido dos dragões, Gaddrasius foi homem — e, entre os homens, mago.
Era estudioso de criaturas cuja existência parecia anteceder as próprias memórias das civilizações. Onde outros viam feras, Gaddrasius via vestígios de uma sabedoria antiga; onde ouviam rugidos, ele procurava linguagem; onde encontravam fogo, suspeitava haver memória. Seus estudos deram origem ao Index Draconica, uma extensa investigação sobre a natureza dos dragões, seus corpos, suas vozes, seus pensamentos e aquilo que poderia existir por trás de suas escamas.
Mas conhecimento raramente permanece distante daquele que o persegue.
Quando Kalyassa surgiu como uma ameaça que poucos ousariam enfrentar, Gaddrasius foi o primeiro mago a tentar detê-la. Não se sabe ao certo o que ocorreu naquele encontro. Alguns dizem que ele tentou vencê-la pela força; outros, que acreditou compreender os dragões o suficiente para desafiar aquilo que havia aprendido sobre eles.
O resultado, entretanto, sobreviveu à verdade.
Gaddrasius não morreu.
Foi condenado a carregar a forma da criatura que passara a vida tentando compreender.
O homem desapareceu sob escamas, asas e fogo, e o nome que antes pertencera a um estudioso passou a preceder outro: Elder Dragon Gaddrasius.
A princípio, aquilo lhe pareceu apenas uma maldição. Com o passar dos anos, porém, tornou-se mais difícil determinar onde terminava a punição e onde começava a compreensão. O fogo deixou de lhe ser estranho. O tempo adquiriu outra medida. Memórias que pertenciam a um homem começaram a coexistir com instintos muito mais antigos.
Os últimos volumes do Index Draconica carregam as marcas dessa mudança. A linguagem torna-se menos clínica, as observações mais íntimas, e aquilo que fora escrito como estudo lentamente se aproxima de uma confissão. Gaddrasius descobriu, tarde demais, que talvez ninguém possa contemplar por tempo suficiente uma natureza tão antiga sem permitir que parte dela também passe a contemplar o mundo através de seus olhos.
Os anos seguintes de sua existência são cercados por relatos fragmentados. Avistamentos surgem aqui e ali, separados por décadas, alguns descrevendo uma criatura silenciosa, outros um dragão de temperamento imprevisível. Como quase tudo que diz respeito a Gaddrasius, é difícil separar memória, temor e verdade.
Até que seu nome começou a ser ligado ao granito dos Followers of Kazordoon.
Para muitos, não havia mistério algum.
Anões acumulavam aquilo que arrancavam das profundezas da terra; metais preciosos, artefatos, moedas e relíquias passavam por seus cofres. Então um dragão apareceu entre suas paredes.
A conclusão escreveu-se sozinha.
Gaddrasius teria encontrado um tesouro digno de seu repouso e feito daquela sede seu covil.
Desde então, sua presença tornou-se tão inseparável daquele lugar quanto o próprio granito. Dizem que repousa próximo às riquezas ali guardadas, que conhece corredores que poucos membros atravessam e que nenhum registro permanece perdido por muito tempo sob o mesmo teto que ele.
Assim, Gaddrasius permanece entre granito, ouro e memória, cercado pelas riquezas dos Followers of Kazordoon e pelos registros de gerações inteiras.
Alguns o chamam de guardião.
Outros preferem a palavra carcereiro.
E há aqueles que, ao observar por tempo suficiente o silêncio dos anões diante de sua presença, começam a suspeitar que a história é mais antiga — e muito menos simples — do que parece.
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