ㅤㅤㅤㅤㅤSeus olhos contam uma história.
ㅤDesde o primeiro instante de vida, ela foi marcada. Um choro comum que anunciou seu nascimento. O silêncio — um silêncio pesado, como se algo já a observasse de volta. Trouxe consigo a maldição de ver aquilo que não pertence a este mundo: os mortos inquietos e as aberrações banidas ao submundo. Seus olhos, cinzentos e opacos, jamais refletiram a luz como os de uma criança deveriam.
ㅤㅤTudo que havia, era medo.
ㅤAs sombras não se limitavam à escuridão. Elas rastejavam sob portas, se curvavam sobre mesas, se enroscavam nos cantos dos armários. À noite, o quarto deixava de ser abrigo e se tornava um campo de vigília. Dormir era um risco. Fechar os olhos era pior.
ㅤㅤNão eram apenas visões. Às vezes… elas a viam. E quando viam, se aproximavam.
ㅤO primeiro arranhão foi tratado como acidente. O segundo, como descuido. Mas, com o tempo, os ferimentos passaram a contar uma história que ninguém mais podia ignorar. Marcas surgiam onde mãos invisíveis pareciam tê-la tocado. O medo deixou de ser dela — passou a ser de todos ao seu redor.
ㅤㅤFoi então que sua família decidiu agir.
ㅤNascida entre poderosos mercadores de Darashia, ela foi levada a curandeiros, xamãs, homens e mulheres que prometiam lidar com o inexplicável. Um a um falharam. Alguns recusaram-se a continuar. Outros sequer ousaram tentar.
ㅤㅤRestava apenas uma esperança.
Dizia-se que os paladinos eram capazes de purificar qualquer maldição. Ela foi entregue a eles — não apenas como filha, mas como um problema a ser resolvido.
ㅤOs testes foram rigorosos. Exigiam mais do que força; exigiam fé, resistência… e algo além. Contra todas as expectativas, ela foi considerada digna.
ㅤㅤㅤㅤㅤDigna de tocar o cálice dourado.
ㅤA promessa de cura. De purificação. De redenção.
ㅤO cálice, ornamentado em ouro, parecia pulsar com uma luz própria. Dentro dele, um líquido dourado repousava — belo, quase divino.
ㅤㅤㅤEla o bebeu, e o líquido desceu como fogo.
ㅤRasgou sua garganta, queimou por dentro, como se estivesse sendo consumida viva por uma chama invisível. A dor era profunda, invasiva, como se algo estivesse sendo arrancado… ou implantado.
ㅤㅤㅤㅤEla gritou. Ou tentou.
ㅤㅤㅤMas o som nunca veio.
ㅤAs semanas seguintes foram um borrão de febre, delírio e fraqueza. Seu corpo lutava contra algo que ninguém conseguia explicar. Alguns acreditaram que ela morreria. Outros, em silêncio, talvez tenham desejado isso.
ㅤㅤMas ela resistiu.
ㅤE quando finalmente abriu os olhos outra vez… algo havia mudado. No primeiro gesto consciente, a primeira centelha surgiu.
ㅤㅤㅤㅤMagia divina.
ㅤFraca, instável — mas inegavelmente real.
Um de seus olhos agora brilhava em dourado, como o próprio cálice. O outro permanecia cinza, vazio… intacto em sua maldição.
ㅤㅤㅤㅤNão tinha sido uma cura.
ㅤㅤEra… equilíbrio.
ㅤFoi assim que interpretaram. Assim que decidiram aceitar.
Uma vitória incompleta, mas ainda assim uma vitória.
ㅤA partir daquele dia, o treinamento começou — intenso, implacável, desumano. Cada passo seu era observado, cada progresso anotado. O que começou como salvação tornou-se algo diferente.
ㅤㅤAlgo mais frio.
ㅤㅤㅤMais calculado.
ㅤEla já não era apenas uma sobrevivente.
ㅤㅤEra um experimento.
ㅤㅤE, enquanto todos observavam seus feitos…
ㅤㅤㅤNinguém mais perguntava o que seus olhos ainda viam.